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A Casa dos Navarros de Andrade

“A Casa dos Navarros de Andrade é um edifício da centúria seiscentista. Aqui viveu o Cónego Mestre – Escola, doutor Rui Gomes Golias, segundo filho de Ambrósio Vaz Golias e de Inês de Guimarães. Tinha sete irmãos: Sebastião Vaz Golias, o primogénito, Diogo de Guimarães, Catarina Golias, Brites Golias e mais três irmãs solteiras. Rui Gomes Golias, era abade de Santa Maria de Sande, tendo permutado essa posição com o seu irmão Sebastião Vaz Golias que ocupava o cargo de mestre‑escola da Colegiada. Foi autor de um ato singular, que perdurou na memória local: numa inspeção dos cónegos da Colegiada ao túmulo de S. Torcato, arrancou, com os próprios dentes, o osso de um dos tornozelos do santo, relíquia que expôs, até à morte, na capela da sua casa, a capela do Senhor Jesus, atraindo para ela a devoção e a atenção dos fiéis. Em 21 de Dezembro de 1662, as suas sobrinhas e herdeiras, Inês de Guimarães1, Catarina Golias2 e Luísa de Guimarães, decidiram entregar esta preciosa relíquia à Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira.

Nesta família os dois filhos primogénitos seguiram a carreira eclesiástica, enquanto o terceiro, Diogo de Guimarães, casou e teve descendência. Das cinco irmãs, duas casaram mas não tiveram descendência. Catarina e Brites e as restantes três ficaram solteiras. O testamento do mestre‑escola, datado de 08 Janeiro 1646, conforme certidão de 2 de Dezembro 16763 dispõe que as casas em que vive, cinco na rua dos Fornos e três na de Santiago que foram consertadas e reunidas por ele, nunca se vendam pelo que as vincula para que «(...) não possam ser alheadas nem escambadas até ao fim do mundo nem sejam divididas e andem sempre juntas em forma de morgado (...)».

Nomeia o seu sobrinho, Ambrósio Vaz Golias, como seu testamenteiro e como herdeira a sua sobrinha Catarina Golias com obrigação de «(...) nomear um filho ou filha seu legítimo e não os tendo poderá nomear um parente ou parenta que seja por a minha parte de meu pai ou de minha mãe qual quiserem com condição que se chamem Golias e Guimarães, mas não quero que possam vir estes bens aos descendentes de João de Valadares e de sua mulher Inês de Guimarães porque os hei por deserdados de meus bens.

Catarina Golias, herdeira do mestre‑escola, é filha de Diogo de Guimarães, irmão de Rui Gomes Golias, que havia casado com Ana Fernandes, dando continuidade à família. Contudo, o Padre Torcato de Azevedo, parente da família, refere que Rui Gomes Golias nomeou o morgado no seu sobrinho, João Guimarães Golias, casado com Maria de Melo dos Guimarães, Desembargador, Deputado da Mesa da Consciência e Ordens, Comendador de São Miguel de Caparroza e embaixador de D. João IV, suscitando dúvida na sucessão deste vínculo. Certo é que, na certidão datada de 2 de Dezembro 1676, do testamento efetuado em 01 de Setembro de 16534, João Guimarães Golias, manda acrescentar ao morgado instituído pelo seu tio 2 mil cruzados.
À morte de João de Guimarães Golias, Catarina Golias ficou como herdeira universal, tendo o seu irmão recomendado à viúva no testamento que «pelo muito que a amava e pela muita estimação que dela fazia por partes e virtudes» que vivesse com as cunhadas em «boa irmandade» ou recolhesse a um convento na companhia de alguma das cunhadas5.

Catarina Golias, herdeira do morgado, procurou transmiti‑lo a António Peixoto Miranda em 1670, mas, segundo Maria Adelaide Pereira Moraes, este não aceitou pois era‑lhe imposto que vinculasse 12 mil cruzados. Catarina nomeia então o morgado em Manuel de Guimarães Golias Peixoto, filho do referido António Peixoto Miranda, que foi escrivão da Misericórdia de Guimarães e faleceu solteiro. O morgado acabou, finalmente, por ir ter às mãos do seu irmão, António Peixoto Miranda Guimarães, que tinha nascido em 6 de Março de 1656 e era casado com sua prima em 2º grau, 17 anos mais nova, Mafalda Luísa Leite, herdeira dos bens e morgado do Peixotos de Azevedo, instituído pelo seu tio, Padre Torcato Peixoto de Azevedo, que faleceu em 1705. Tiveram treze filhos, dez raparigas e três rapazes. À data de óbito, 31 de Julho de 1727, com setenta e um anos, fez o seu testamento na forma seguinte: morgado é transmitido a um único herdeiro, o filho mais velho, de nome José Peixoto, que fica com responsabilidades de cuidar do futuro dos seus irmãos. Todas as filhas são encaminhadas para o convento, neste caso para o Convento de Santa Clara no Porto. Os filhos mais novos são deixados a cargo do irmão beneficiado, devendo‑lhes pagar uma tença de cinquenta mil réis enquanto viverem juntos e em harmonia e de cento e cinquenta mil réis caso se separem.

Em Janeiro de 1754 morre José Peixoto, solteiro, com 42 anos de idade. Em 1758, com a idade de 84 anos, morre Mafalda Luísa, sem testamento, sendo referido no registo de óbito que lhe ficou um filho secular e várias filhas religiosas. Dez anos depois, em 1768, faleceu Manuel Peixoto, solteiro, com a idade de 66 anos. No seu testamento declara que não era casado e que nunca tivera filhos. Nomeava o morgado de que era titular em Fernando da Costa Mesquita, seu segundo primo em segundo grau, bem como todos os bens que possuía fora do mesmo morgado, com obrigação de lhes pagar as dívidas e de pagar a cada uma das suas irmãs, religiosas no convento de Santa Clara da cidade do Porto, enquanto se achassem vivas, a quantia anual de seis mil réis. Contudo, Fernando da Costa Mesquita faleceu cedo, em 11 de Setembro de 1769, igualmente solteiro e sem descendência direta. Os seus irmãos que se seguiam na linha de sucessão faleceram solteiros em 1794 e 1796. A herança acabou por ir parar às mãos de uma irmã, também solteira, Ana Margarida dos Guimarães Golias que, à data em que toma posse do vasto património da família, era idosa e irremediavelmente solteira. Morreu em 1820, com 90 anos.

Se a vida tivesse seguisse o seu curso esperado, o herdeiro natural de todos os bens de D. Ana Margarida teria sido o filho da sua irmã Guiomar Antónia, Paulo Vicente Machado de Miranda, nascido em 1776. Mas este não correspondeu «às esperanças e desvelos de sua tia», tornando‑se «extravagante pelas súcias que fazia com seus próprios lacaios e com os das outras famílias, andando de noite com festadas e tomando os hábitos e costumes da gente com que acompanhava», tendo sido preso como autor do homicídio de um indivíduo que respondia pelo apelido de Marmelada, pelo qual passou um ano na cadeia de Guimarães. Supostamente para tirar o sobrinho do ambiente em que vivia, D. Ana Margarida foi viver para o Porto, levando‑o consigo. Aí, Paulo Vicente Machado continuaria transviado, «não com as mesmas extravagâncias, mas com as de outro género, mulheres e bebidas fortes que o foram arruinando até que faleceu».

Sobrevivendo àquele que seria o seu sucessor natural, D. Ana Margarida efetuou, em outubro de 1814, o seu testamento a favor de Jacinto Navarro de Andrade (razão pela qual a casa das Lamelas é designada por Navarros de Andrade), cónego na basílica de Santa Maria na Sé de Lisboa e capelão da Casa Real, com o qual não tinha qualquer parentesco, originando uma longa contenda judicial, levantada por familiares que reclamavam direitos de herdeiros, que se prolongaria nos tribunais por muitos anos.”


In: FERREIRA, Antero; NEVES, Amaro das – Estratégias Matrimoniais em Guimarães (séculos XVIII e XIX): uma abordagem diferencial (www.ghp.ics.uminho.pt).

1. 02.02.1670-P-361 f.155
2. 26.09.1681 - P-394 f.37
3. MC69 p. 256-264v
4. MC-69 p. 256-264v
5. MC-69 p. 256-264v
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